Pra que discutir com Madame
Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba,
Madame diz o que samba tem pecado
Que o samba é coitado e devia acabar,
Madame diz que o samba tem cachaça, mistura de raça,
mistura de cor,
Madame diz que o samba democrata, é música barata sem
nenhum valor,
Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém
sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra que discutir com madame.
No carnaval que vem também concorro
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na Avenida entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno meu Deus que horror
O samba brasileiro democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.
Compositores: Haroldo Barbosa e Janet de Almeida
A letra dessa música tem por objetivo demonstrar
que no Brasil nunca existiu “democracia racial” e que uma parcela do povo brasileiro, mais conhecido como burguesia, acreditava que elementos ligados a cultura negra como samba e mistura de
raças deveriam ser renegados, esquecidos, pois não acrescentavam nada ao enriquecimento da cultura brasileira. Quando o autor usa o
termo “Madame” refere-se a essa parcela da
elite brasileira que acreditava que elementos da tradição do povo negro eram ruins, não possuíam um papel
positivo na vida e cultura do povo brasileiro. Essas ideias foram abordadas nas obras de alguns autores a exemplo de Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de
Holanda, entre outros .
Em sua obra,
Sérgio Buarque de Holanda expunha como os problemas nacionais tiveram origem. Ele descreveu o brasileiro como “homem cordial”, e dizia que suas ações eram
baseadas no sentimento, que o mesmo agia pela emoção, que gostaria de ser tratado
como pessoa e não como indivíduo. Holanda acreditava que a causa da desorganização
social existente no país era consequência, dentre outras coisas, da miscigenação
da população brasileira, pois segundo ele o Brasil foi colonizado por
portugueses que se envolveram com outras raças, como a princípio índios e
posteriormente negros e que essa mistura prejudicou a formação da identidade nacional,
que era completamente oposta à identidade europeia, que era vista como ideal.
A partir dessa análise pode-se constatar que o samba, por ter
sua origem na cultura popular, foi durante muito tempo menosprezada
pela conservadora elite brasileira, pois trazia elementos que eram opostos a cultura europeia e aceitar o
samba como elemento da cultura do Brasil, seria para essa elite reconhecer a “inferioridade” e
o “atraso” do país com relação as demais nações.
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