segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O tema da malandragem, seu significado histórico e sua representação na música popular brasileira!


O tema da malandragem predominou na música popular brasileira até os anos 30, constituindo o assunto predileto do compositor popular urbano. Nesta época, havia uma visível disparidade no pensamento social brasileiro entre valores relacionados ao trabalho sistemático e rotineiro, que emerge com as primeiras tentativas empreendidas pelo governo de Getúlio Vargas de industrializar o Brasil e a vida descompromissada com tais valores e pautada no modo boêmio de viver, encarada como fonte de felicidade. Ao exibir e elevar a figura do malandro, que acaba por constituir-se enquanto modo de vida, a música popular exerceu uma contundente crítica à vida na cidade grande e repercutiu, sobretudo, entre os trabalhadores mais pobres. Apesar das transformações político-econômicas e sócio-culturais empreendidas nesse período histórico por meio da industrialização, as desigualdades sociais ainda continuavam a se reproduzir consoante ao processo de modernização.  Desse modo, o samba, bem representado pela canção "Cabide de Molambo", composta por João da Baiana, em 1917 e gravado em 1932, traduz então um descrédito na possibilidade de ascensão social através do trabalho, tal como estava organizado na emergente sociedade capitalista.  
Roberto D'Matta, em sua obra "O que faz o brasil, Brasil?" trata da questão da malandragem como figura indissociável de aspectos relativos a formação da nossa sociedade. O autor aponta, dentre outras observações, que as leis e regras criadas no Brasil não condizem com a realidade da sociedade e que dessa forma não contemplam as necessidades da mesma, diferentemente de países como EUA e demais países europeus, apontados pelo próprio autor. Para ele o cidadão no Brasil é explorado, a lei não vale igualmente para todos os indivíduos e alguns acabam por ter mais privilégios que outros, como podemos observar no trecho a seguir: "Isso que ocorre diariamente no Brasil, quando, digamos, um bacharel comete um assassinato e tem direito a prisão especial e um operário, diante da mesma lei, não tem tal direito porque não é, obviamente, bacharel...". (Freire, 1933, p.61)
Na análise do autor as leis no Brasil "sempre significam um "não pode!" formal, capaz de tirar todos os prazeres e desmanchar todos os projetos e iniciativas." Desse modo é que D'Matta identifica a gênese do jeitinho brasileiro materializado na figura do malandro, como bem podemos perceber em mais um trecho de sua obra: "Ora, é precisamente por tudo isso que conseguimos descobrir e aperfeiçoar um modo, um jeito, um estilo de navegação social que passa sempre nas entrelinhas desses peremptórios e autoritários “não pode!”. Assim, entre o “pode” e o “não pode”, escolhemos, de modo chocantemente antilógico, mas singularmente brasileiro, a junção do “pode” com o “não pode”. Pois bem, é essa junção que produz todos os tipos de “jeitinhos” e arranjos que fazem com que possamos operar um sistema legal que quase sempre nada tem a ver com a realidade social." (Freire, 1933, p.62)

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