domingo, 9 de fevereiro de 2014

Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala, registra a atração dos senhores de
engenho pela negras escravas e defende que a miscigenação, associada ao clima tropical, dava às mulheres uma exacerbada sensualidade.Vimos também em Freyre como as mulheres negras(escravas) eram tratadas no sentido de posse e  como mercadorias  pelos seus senhores tinham que atender aos seus caprichos.
Uso como exemplo os comerciais de cerveja os meios de comunicação sobrevivem graças ao interesse que despertam esses comerciais,o apelo que fazem da sensualidade feminina a impressão que passam de consumo não só da cerveja como também da mulher.Um  certo sentimento de propriedade.
Por este motivo em alguns países como Dinamarca e Estados Unidos os comerciais de cerveja foram banidos, pois   com o posicionamento da mulher contemporânea na sociedade e no mercado de trabalho propagandas desse tipo podem denegrir a imagem feminina.

O samba e a identidade brasileira.

Pra que discutir com Madame
Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora por causa do samba,
Madame diz o que samba tem pecado
Que o samba é coitado e devia acabar,
Madame diz que o samba tem cachaça, mistura de raça, mistura de cor,
Madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor,
Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra que discutir com madame.
No carnaval que vem também concorro
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na Avenida entre mil apertos 
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno meu Deus que horror
O samba brasileiro democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.

Compositores: Haroldo Barbosa e Janet de Almeida

A letra dessa música tem por objetivo demonstrar que no Brasil nunca existiu “democracia racial” e que uma parcela do povo brasileiro, mais conhecido como burguesia, acreditava que elementos ligados a cultura negra como samba e mistura de raças deveriam ser renegados, esquecidos, pois não acrescentavam nada ao enriquecimento da cultura brasileira. Quando o autor usa o termo “Madame” refere-se a essa parcela da elite brasileira que acreditava que elementos da tradição do  povo negro eram ruins, não possuíam um papel positivo na vida e cultura do povo brasileiro. Essas ideias foram abordadas nas obras de alguns autores a exemplo de Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros .
Em sua obra, Sérgio Buarque de Holanda expunha como os problemas nacionais tiveram origem. Ele descreveu o brasileiro como “homem cordial”, e dizia que suas ações eram baseadas no sentimento, que o mesmo agia pela emoção, que gostaria de ser tratado como pessoa e não como indivíduo. Holanda acreditava que a causa da desorganização social existente no país era consequência, dentre outras coisas, da miscigenação da população brasileira, pois segundo ele o Brasil foi colonizado por portugueses que se envolveram com outras raças, como a princípio índios e posteriormente negros e que essa mistura prejudicou a formação da identidade nacional, que era completamente oposta à identidade europeia, que era vista como ideal.
A partir dessa análise pode-se constatar que o samba, por ter sua origem na cultura popular, foi durante muito tempo menosprezada pela conservadora elite brasileira, pois trazia elementos que  eram opostos a cultura europeia e aceitar o samba como elemento da cultura do Brasil, seria para essa elite reconhecer a inferioridade  e o atraso  do país com relação as demais nações.

O malandro Zé carioca






O autor Roberto da Matta ressalta o jeitinho do brasileiro e a malandragem, de se livrar muitas vezes, de compromissos, de não cumprir normas. Ele cita três exemplos: Estados Unidos, França e Inglaterra, onde as regras são obedecidas ou não existem, porque eles acreditam que burlar regras, estão apenas abrindo caminho para a corrupção burocrática e ampliando a desconfiança no poder público. Nessas sociedades a lei não é feita para explorar o cidadão ou como instrumento para corrigir a sociedade, mas para que ela funcione bem.                         


Ninguém mais do que o Zé Carioca personagem inspirada no estereótipo do malandro que com o seu jeitinho se dá bem nas situações que cria.
A malandragem é considerada como um recurso de esperteza utilizado por indivíduos de pouca influência social, porém, não impede de ser utilizada também por indivíduos bem posicionados socialmente.
A malandragem é definida como um conjunto de artimanhas utilizadas para se obter vantagem em determinada situação muitas vezes até ilícitas .Sua execução exige destreza, carisma, lábia e quaisquer características que permitam a manipulação de pessoas de forma a conseguir resultados de maneira mais fácil contradizendo argumentação lógica e a honestidade.
Não existe uma teoria da malandragem que sustente e justifique esse comportamento típico. A postura e a atitude do malandro é retratada principalmente pelas artes.
O jeito de ser e de se vestir dos malandros como estereótipos são diversos como:
Aladim, vadio e arruaceiro, possuidor de uma lâmpada mágica;  Azambuja, típico malandro carioca interpretado por Chico Anísio; Pedro Malasartes, personagem do folclore popular, que conta apenas com sua própria malandragem para manipular gente mais privilegiada e conseguir  algum conforto na vida; Pica-pau, personagem do desenho animado que vive querendo levar vantagem em tudo; Robin Hood, um fora da lei, que roubava dos ricos para dar aos pobres, entre outros.
A malandragem configura-se quando o sujeito abdica e mesmo escarnece de suas funções e obrigações sociais. O malandro muitas vezes é rotulado como preguiçoso, vagabundo, inútil...
O estereótipo da malandragem foi capaz de influenciar não apenas a cultura brasileira como também a de outros países.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

De onde vem o jeitinho brasileiro de ser?

Por que somos malandros
Aconteceu em 1943, após uma visita de Walt Disney ao Brasil, como parte da política de “boa vizinhança” dos EUA que visava reforçar os laços com os sul- americanos durante a 2a Guerra Mundial. Naquele ano, Pato Donald apresentaria um novo companheiro no filme Alô, Amigos: seu nome era Joe Carioca, para os americanos, ou Zé Carioca, para os brasileiros, um simpático e falante papagaio. Dali em diante, a imagem do brasileiro se firmava como a de uma espécie de bon vivant tropical, cheio de ginga, que não se adaptava a empregos formais e vivia de “bicos”.
Mas, muitos anos antes de ganhar o mundo, a figura típica do “bom malandro” já estava presente no imaginário do Brasil. A antropóloga Lilia Schwarcz, pesquisadora do tema, diz que o advento do malandro está vinculado à questão racial no país. O malandro seria a figura do mulato brasileiro que dribla o preconceito e consegue uma certa ascensão social por meio de favores conquistados com ginga e simpatia.
Antes de Zé Carioca, as desventuras do personagem Macunaíma, de Mário de Andrade, lançado em 1928, já haviam revelado a essência malandra e mestiça do caráter nacional. Para o crítico Antônio Cândido, o primeiro malandro da nossa literatura teria nascido muito tempo antes, ainda no século 19, com o personagem Leonardo Pataca, do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.
Mas se a figura do malandro surge como uma estratégia criativa de sobrevivência para ex-escravos, descendentes de escravos, enfim, todos aqueles que não se transformaram em cidadãos logo após a abolição, como entender a malandragem presente também na elite nacional? O que faz com que o deputado Severino Cavalcanti, presidente da Câmara dos Deputados, em pleno século 21, faça a defesa do nepotismo – conseguindo empossar seu filho para um posto importante do governo, apesar de toda a indignação da opinião pública?
Em 1936, o historiador Sérgio Buarque de Holanda dedicou um dos capítulos do seu livro Raízes do Brasil ao estudo do chamado “homem cordial”, termo usado então para tentar explicar o caráter do brasileiro. Um dos traços do brasileiro cordial era, segundo o historiador, a propensão para sobrepor as relações familiares e pessoais às relações profissionais ou públicas. O brasileiro, de certa forma, tenderia a rejeitar a impessoalidade de sistemas administrativos em que o todo é mais importante do que o indivíduo. Daí a dificuldade de encontrar homens públicos que respeitem a separação entre o público e o privado e que ponham os interesses do Estado acima das amizades.
Para diversos pesquisadores, isso se explicaria pelo fato de que, durante boa parte da colonização do país, o Estado se confundia com a figura do senhor de engenho, do fazendeiro de café e, anteriormente, com os próprios donatários das capitanias hereditárias. Ou seja: a decisão sobre a vida e a morte de um escravo, por exemplo, era uma decisão de cunho tão privado como a escolha do mobiliário da fazenda pelo senhor e sua família, cuja autoridade estava acima de qualquer outra lei.
Talvez por isso, quando a amizade e o jeitinho não funcionam, é normal ouvir-se um ríspido e autoritário “Você sabe com quem está falando?”, como diz o antropólogo Roberto DaMatta.
Em seu livro Carnavais, Malandros e Heróis, o antropólogo descreve o dilema herdado pelo brasileiro. De um lado, nos submetemos a um sistema de leis impessoais cuja obediência nos países ricos nos causa inveja e admiração. Internamente, contudo, encaramos essas leis como uma espécie de estraga-prazeres – e os burocratas, sabendo disso, parecem muitas vezes aplicá-las para dificultar a vida do cidadão. De outro lado, existiria o sistema da nossa “rede de contatos”, em que impera o parentesco, a amizade ou qualquer ligação pessoal que drible a lei. Trocando em miúdos: a lei é vista – e muitas vezes aplicada – como um castigo e para fugir desse castigo vale a malandragem, o jeitinho.
Por que misturamos tudo
No início do século 20, o futuro parecia literalmente negro para os intelectuais brasileiros que sonhavam em reproduzir por aqui a civilização européia. E não era para menos. Se as teorias da época pregavam que a mistura de raças degradava o povo brasileiro, estava claro que a miscigenação era irreversível.
Os esforços de urbanização e saneamento falhavam em fazer das nossas cidades uma reprodução das capitais civilizadas do mundo. No Rio, por exemplo, os destroços dos velhos cortiços derrubados para a construção de grandes avenidas no estilo parisiense serviam de material para os sem-teto construírem moradias improvisadas nos morros, dando origem às primeiras favelas cariocas.
Qual a imagem que sobressairia do país? A urbanizada, branca, européia, ou a negra, favelada, africana?
“Foi a imagem do mulato que prevaleceu”, diz a antropóloga Lilia Schwarcz. De acordo com ela, isso ocorreu por vários motivos. O primeiro deles teria sido a aceitação, pelos pensadores do país, de que a presença africana em nossa formação era algo positivo. O marco dessa mudança de olhar teria aparecido com a publicação de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, em 1933. Muito antes do advento da genética moderna, Freyre já escrevia que: “Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma e no corpo a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro.”
Na cultura, o movimento iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922 também já havia absorvido essa identidade mestiça na obra de artistas plásticos como Tarsila do Amaral e escritores como Mário de Andrade, o pai de Macunaíma. Só faltava mesmo o governo assumir que éramos, enfim, um país mestiço.
“Isso ocorreu com o advento do Estado Novo de Vargas, em 1937”, diz Lilia Schwarcz. “É quando a capoeira vira esporte nacional, o samba passa a ser a música brasileira por excelência e a feijoada, com o preto do feijão e o branco do arroz, o verde da couve e o amarelo da laranja, se torna o prato oficial do brasileiro.” Anos depois, a música Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, consagraria nossa identidade mestiça cantando as virtudes do nosso “mulato inzoneiro” para o mundo. A diversidade de raças, cultura e até mesmo de religião – em que outro país alguém pode ser um pouco católico, um pouco espírita e ter medo de encruzilhadas? – deixava de ser motivo de vergonha para se tornar motivo de orgulho, assim como os jogadores da seleção brasileira.

 Texto Rodrigo Cavalcante* Revista Super interessante


Análise do texto
O autor faz uma reflexão bem construída fundamentada em obras brasileiras de autores que tiveram papel  relevante na construção da identidade do povo brasileiro, assim como  Gilberto Freire, que num  momento histórico de extremo racismo, publicou sua obra "Casa Grande e Sensala", trazendo a importância da miscigenação para a construção da cultura nacional. Sergio Buarque de Holanda,  aborda  em sua obra "Raízes do Brasil", o caráter do povo brasileiro que, sobrepõe as relações pessoais e familiares às relações profissionais e administrativa, que segundo o autor, contribui para a pessoalidade nas relações entre  público e privado. E sob esses aspectos que a sociedade brasileira é construída, o negro como protagonista da imagem do malandro, que, segundo antropóloga  Lilia Schwarcz, essa ideia surge da questão racial no país, quando o negro consegue driblar o preconceito com sua ginga e simpatia, conquistando favores.

Malandragem brasileira!


a capoeira na  malandragem brasileira
Análise da música
A capoeira, hoje conhecida como esporte e expressão artística, já foi censurada, em virtude de sua origem africana, Angola, que era entendida como uma atividade desvalorizada, por está vinculada à cultura negra, e por isso se agregou a ideia de vagabundagem a essa prática. 
Compreende-se o surgimento da capoeira regional  como uma forma de "embranquecimento" da capoeira tradicional, por entender as modificações que ocorreram no decorrer de sua prática como esporte e arte, que vai se expandir para outros grupos sociais. (Alejandro Frigerio.Capoeira: de arte negra à esporte branco).
Essa mistura cultural, de luta e dança, foi apresentada por Gilberto Freyre, em sua obra "Casa Grande e Senzala" como um aspecto pluricultural do povo brasileiro que se manifestava através da transversalidade das culturas. Isso contribuiu para que, a cultura negra fosse vista por outra ótica, passando a  fazer parte da identidade do povo brasileiro.
Conclui-se que, a malandragem brasileira foi  também constituída com a capoeira, por se tratar de uma estratégia  de defesa contra os senhores de engenho, mas, que era uma atividade desenvolvida de forma disciplinada e articulada  na cultura negra também para expressar sua jinga e simpatia.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mulher Brasileira


Mulher Brasileira

Benito Di Paula

Agora chegou a vez, vou cantar
Mulher brasileira em primeiro lugar
Agora chegou a vez, vou cantar
Mulher brasileira em primeiro lugar
Norte a sul do meu Brasil
Caminha sambando quem não viu
Mulher de verdade, sim, senhor
Mulher brasileira é feita de amor










                         















Análise da música:
A sensualidade da mulher brasileira faz parte da identidade nacional. Segundo Gilberto Freyre a miscigenação foi algo positivo para a nossa formação social. O carnaval e a mulata fazem parte da identidade brasileira.
A mulher brasileira é vista por outros países como símbolo sexual. A música de Benito Di Paula exalta a mulher brasileira de norte ao sul, com destaque para a mulata do carnaval com seu samba no pé.
Mas, apesar da mulher (mulata do carnaval) ser considerada identidade nacional, é vítima de racismo e preconceito na sociedade brasileira. Não só pelo fato de ser negra, mas pela sensualidade que é vista como falta de pudor e demonstração de vulgaridade pelos seguimentos mais conservadores e tradicionais da sociedade.

A mão da limpeza.

A mão da limpeza
Gilberto Gil



O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Que mentira danada, ê

Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o negro penava, ê

Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza

Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza

Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
Eta branco sujão


Análise da música:


                                   A mão da limpeza
A música de Gilberto Gil, "A  mão da limpeza”, mostra a condição de preconceito e exclusão social em que vivem os negros que mesmo depois da abolição da escravidão na sociedade brasileira são tratados como seres inferiores e no mercado de trabalho ocupam o lugar subalterno, com menor renumeração.
A música faz uma crítica ao ditado popular racista, criado pelo branco que diz:” o negro quando não suja na entrada vai sujar na saída”. Na verdade, o que o branco considera sujo é a própria existência do negro, sua condição humana. 
Para Nina Rodrigues" o negro e o mestiço eram chagas da nossa nacionalidade e tinham tendência ao crime". Voltando a música, realmente os sujos são os brancos de corpo e alma com todas suas manchas no decorrer da história da civilização ao exterminar, escravizar e explorar povos.


“ País do futebol”

“ País do futebol”
O Brasil é conhecido por todo mundo como país do futebol, isto é, reproduzido de geração em geração. Segundo Jessé Souza" o “mito nacional” é a forma moderna por excelência para a produção de um sentimento de “solidariedade coletiva” e que juntos formamos uma unidade.”
Neste ano de copa do mundo a mídia reforça ainda mais o sentimento de “pertencimento coletivo” para justificar os investimentos na copa do mundo. O governo está gastando bilhões com os preparativos para copa do mundo, e os serviços públicos como educação e saúde, estão em situações precárias. A população que necessita do SUS está morrendo por falta de investimentos na saúde pública, faltam médicos, UTIs, leitos, medicações etc. Os políticos brasileiros precisam cumprir suas promessas de campanha, pois foram eleitos para representarem o povo.
A educação pública é outro problema grave em que os governantes não têm interesse em investir. Todos que chegam ao poder o discurso é o mesmo, que vão investir na educação e saúde e terminam o mandato e a situação continua a mesma, isto é, uma grande malandragem dos políticos para chegarem ao poder.
O Brasil pode ser 10 no futebol, pois é o único país penta campeão do mundo, mas é zero na educação e saúde.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O tema da malandragem, seu significado histórico e sua representação na música popular brasileira!


O tema da malandragem predominou na música popular brasileira até os anos 30, constituindo o assunto predileto do compositor popular urbano. Nesta época, havia uma visível disparidade no pensamento social brasileiro entre valores relacionados ao trabalho sistemático e rotineiro, que emerge com as primeiras tentativas empreendidas pelo governo de Getúlio Vargas de industrializar o Brasil e a vida descompromissada com tais valores e pautada no modo boêmio de viver, encarada como fonte de felicidade. Ao exibir e elevar a figura do malandro, que acaba por constituir-se enquanto modo de vida, a música popular exerceu uma contundente crítica à vida na cidade grande e repercutiu, sobretudo, entre os trabalhadores mais pobres. Apesar das transformações político-econômicas e sócio-culturais empreendidas nesse período histórico por meio da industrialização, as desigualdades sociais ainda continuavam a se reproduzir consoante ao processo de modernização.  Desse modo, o samba, bem representado pela canção "Cabide de Molambo", composta por João da Baiana, em 1917 e gravado em 1932, traduz então um descrédito na possibilidade de ascensão social através do trabalho, tal como estava organizado na emergente sociedade capitalista.  
Roberto D'Matta, em sua obra "O que faz o brasil, Brasil?" trata da questão da malandragem como figura indissociável de aspectos relativos a formação da nossa sociedade. O autor aponta, dentre outras observações, que as leis e regras criadas no Brasil não condizem com a realidade da sociedade e que dessa forma não contemplam as necessidades da mesma, diferentemente de países como EUA e demais países europeus, apontados pelo próprio autor. Para ele o cidadão no Brasil é explorado, a lei não vale igualmente para todos os indivíduos e alguns acabam por ter mais privilégios que outros, como podemos observar no trecho a seguir: "Isso que ocorre diariamente no Brasil, quando, digamos, um bacharel comete um assassinato e tem direito a prisão especial e um operário, diante da mesma lei, não tem tal direito porque não é, obviamente, bacharel...". (Freire, 1933, p.61)
Na análise do autor as leis no Brasil "sempre significam um "não pode!" formal, capaz de tirar todos os prazeres e desmanchar todos os projetos e iniciativas." Desse modo é que D'Matta identifica a gênese do jeitinho brasileiro materializado na figura do malandro, como bem podemos perceber em mais um trecho de sua obra: "Ora, é precisamente por tudo isso que conseguimos descobrir e aperfeiçoar um modo, um jeito, um estilo de navegação social que passa sempre nas entrelinhas desses peremptórios e autoritários “não pode!”. Assim, entre o “pode” e o “não pode”, escolhemos, de modo chocantemente antilógico, mas singularmente brasileiro, a junção do “pode” com o “não pode”. Pois bem, é essa junção que produz todos os tipos de “jeitinhos” e arranjos que fazem com que possamos operar um sistema legal que quase sempre nada tem a ver com a realidade social." (Freire, 1933, p.62)

Documentário: A história do racismo.

Este documentário narra a história do racismo desde a sua constituição (aprox. entre os séculos XVI e XVII) até os dias atuais. Pretende demonstrar, a partir de fundamentos sócio-históricos, a origem de todas as formas de violência, opressão, dominação e violação de direitos destinada a determinados grupos humanos, em razão de um projeto de dominação emergente. Este fato explica o racismo na sociedade atual e os estigmas construídos ao longo de séculos em torno desses povos, como estratégia de manter o domínio então estabelecido, onde o racismo, serviu e continua a servi, agora sob nova roupagem, como base de justificação para estabelecimento do mesmo.
Toda essa história nos permite compreender os esteriótipos e as atribuições preconceituosas criadas em torno da figura da mulher e do homem negra/o, essencializados no pensamento social brasileiro. Este pensamento, inclusive legitimado pela cultura intelectual do século XX, foi rejeitada por Gilberto Freyre em "Casa Grande & Senzala", sua clássica obra de interpretação da realidade brasileira. As ideias de valorização do negro e da cultura afro-brasileira postuladas por Freyre se contrapunham às construções intelectuais defendidas pelo sociólogo Oliveira Viana (autor de Populações Meridionais do Brasil) e outros nomes da época. As concepções raciais baseadas em determinismos climáticos associavam o "atraso" do Brasil ao clima tropical e às populações mestiças. Freyre, em contrapartida, demonstrou que o "atraso" do país estava diretamente relacionado as causas sociais de higiene e alimentação. Ao contrário dos intelectuais de sua época, que desconsideravam as manifestações populares, Gilberto Freyre reconheceu as particularidades da cultura brasileira, caracterizadas pelo sincretismo e criticou as construções preconceituosas que reafirmavam, a partir do racismo científico, a inferioridade dos negros, índios e mestiços e a visão negativista do país defendida pela elite e pelos intelectuais. Suas ideias representaram uma contundente crítica ao racismo na medida em que buscou desconstruir a afirmação da superioridade de uma raça sobre outra, mesmo que considerasse a existência de uma gradação hierárquica entre diferentes culturas.

domingo, 26 de janeiro de 2014

A mulher negra vista como objeto.

Desde a época do Brasil Colônia, a mulher negra brasileira era vista como objeto de exploração. Naquele período, eram frequentes as situações em que as escravas eram obrigadas a manterem relações sexuais com seus senhores, por entenderem que seus corpos lhes pertenciam, uma vez que estes homens os haviam comprado como uma mera mercadoria e poderiam fazer o que quisessem e por isso praticavam todo tipo de barbárie sexual com essas mulheres, inclusive eram frequentes os casos em que os filhos desses senhores de escravos tinham suas primeiras experiências sexuais com as jovens negras, com total incentivo da figura paterna. As negras eram tratadas como objetos de prazer e por medo de represálias ou mesmo em alguns casos por “conveniência” cediam aos caprichos sexuais de seus “donos”. Na contemporaneidade, mesmo quase dois séculos, após a abolição da escravatura, ainda persiste no imaginário do povo brasileiro a ideia da mulata como objeto sexual, e tal mito é propagado pela mídia que insiste em apresentar a figura da mulher negra ou mulata brasileira de forma pejorativa, apenas evidenciando seus atributos físicos sem levar em consideração as demais qualidades existentes. É possível constatar essas situações através de programas como nos apresentados nas figuras acima, a exemplo do concurso realizado para escolha da Globeleza 2014, em que assim como no período da escravidão, a mulher negra aparece como uma mercadoria sexual a mercê de uma sociedade machista.

domingo, 19 de janeiro de 2014

"Você sabe com quem está falando?"

"Coronelismo, mandonismo, patriarcalismo, personalismo, clientelismo e até mesmo populismo (embora este surja no Brasil republicano e de forma incisiva no período Vargas) são alguns dos “ismos” que se fizeram presentes na história da organização política do país, servindo às elites como mecanismos de cooptação, coerção, e de legitimação de seu poder, isto é, como instrumento para seu acesso e manutenção do comando do Estado."
                                                                                                         Paulo Silvino Ribeiro
O antropólogo Roberto da Matta em seu livro Carnavais Malandros e Heróis discute o tema da malandragem, clientelismo e autoritarismo marcas do nosso passado histórico, no contexto contemporâneo brasileiro. Na sua visão o país é marcado pelos contrates e contradições onde às relações sociais serão feitas pelo aspecto do emocional então a troca de favores, assim como a conhecida e ameaçadora pergunta: Você sabe com quem está falando? É que vai prevalecer, nas relações para burlar as leis e as regras dando um “jeitinho brasileiro em tudo”.
Para ele a malandragem está presente nas ações cotidianas da sociedade, furar o sinal de transito, usar seu cargo para obter vantagens pessoais seria exemplos disso, mas essas ações de "jeitinhos"só são enxergadas no outro e por isso as pessoas particulariza o seu caso como especial não necessitando cumprir as leis porque tinha motivos que justifica não cumprir, então posso furar o sinal porque estou atrasado. Esse brasileiro ver a rua como espaço público sendo de todos que acaba não sendo de ninguém assim, só é necessário seguir as leis se houver a presença da autoridade para obrigar a fazer sobre pena de punições, teremos então um espaço de conflitos. dessa forma, se torna  necessário a negociação entre iguais e desiguais, já a convivência em família é um espaço privado sendo necessário ter proteção e favorecimento.
Nesse aspecto analisar as relações da sociedade brasileira com os políticos é perceber o descredito total, acredita-se que "todo politico é ladrão" e corrupto uma denominação evoluída do "jeitinho" que é mais grave e dessa forma não vale a pena participar da vida politica do país, deixando o caminho livre para a elite agir colocando seus representantes no poder. A corrupção então ficou associada a coisa de politico, essa visão disseminada na mídia neoliberal brasileira é colocada para não se dar credito a politica pois, através dela poderíamos mudar a sociedade se os sujeitos sociais ocupassem os espaços de poder, através da democracia participativa. Participamos da democracia representativa ao eleger os políticos para os cargos, mas, durante todo o mandato não exercemos a democracia participativa, atuando nos conselhos fiscalizando as ações dos representantes, fazendo manifestações em massa, para pressionar a mudança que queremos

Desafios para a mulher brasileira no sentido de ser necessaria a construção de uma nova identidade



                                                                       
As mulheres mesmo após terem conquistado espaço no mercado de trabalho continua com o trabalho domestico como responsabilidade exclusiva, assumindo então uma dupla jornada de trabalho sem ganhar nada a mais por isso, pois a sociedade capitalista não ver as funções domesticas como trabalho esse e estereótipo de que “lugar de mulher é na cozinha” é ditado ainda hoje por uma sociedade mergulhada no machismo.
A construção da feminilidade que atribui a mulher características como sensível, amorosa e frágil está relacionada com a responsabilização das mulheres com o trabalho domestico e no cuidado com os filhos, isentando os homens de tal tarefa. É aceito socialmente que as mulheres devem cuidar da família por amor.
No Brasil, ainda não conseguimos nos livrar das raízes patriarcais, do coronelismo, da subserviência das mulheres para com os seus maridos coronéis, estes, dono de grandes latifúndios onde mantinham sobre seu domínio, os escravos, sua mulher, agregados e  seus filhos com forte poder sobre a vida social no qual mantinha o povo como massa de manobra de seus interesses privados. Dessa forma, a mulher era tida como uma propriedade da fazenda, desempenhando uma função socialmente determinada de procriar e cuidar da casa.
Em casa grande senzala Gilberto Freyre consegue descrever como se dava essa relação da família patriarcal que se formou aqui no Brasil. Nascida da escravidão, na mistura do negro índio e branco onde nessa relação havia a presença muito forte da hierarquia patriarcal, a mulher negra se torna ainda mais subalternizada, pois na ordem hierárquica primeiro vem o homem branco, depois a mulher branca posteriormente o homem negro e por ultimo a mulher negra que carrega desde os tempos coloniais as marcas da exploração, humilhação e opressão sobre si. Os senhores de engenho tratava essas mulheres escravas como objeto sexual para satisfação pessoal, descrita na obra de Freyre foi desnudado a sexualidade brasileira nos tempos coloniais. O autor descreve essa relação como consensual, sendo de vontade própria da escrava se entregar aos brancos, usando o termo “escravas passivas”, mas, como pensar que essas mulheres tinham alguma escolha diante da sua condição de mulher e especificamente escrava, tirada de si toda a condição de ser humano dotado de vontade e liberdade para escolhas, numa formação social aristocrata, patriarcal e escravista? 
 Nessas tentativas de se criar uma identidade brasileira temos hoje a figura da mulata brasileira associado a sexualidade, agora vendida com amarras mais sutis e invisíveis, destacando o papel da mídia especialmente no período do carnaval onde a TV promove concurso de beleza com mulheres negras seminuas sambando exibindo seus corpos sensuais. Essas mulheres em busca de condições melhores de vida, busca pelo sucesso, reconhecimento social se submetem a tais espetáculos sem enxergar a essência que se esconde por trais de tal ato, pois em um país sem educação que emancipe o sujeito onde não se discute as reais condições sociais e contraditórias do país, tem sua historia contada de cima para baixo fica difícil imaginar uma outra atitude dessas mulheres.
Dada essas condições, a mulher brasileira especialmente a negra assume um desafio ainda maior, vencer as barreiras do racismo que as coloca em condições ainda piores que as mulheres brancas.      
As múltiplas facetas da discriminação se apresentam nas “verdades” ditas sem uma reflexão, forjada no senso comum e sem perceber muitas vezes as próprias vitimas de certa maneira, se deixam levar por essas verdades, começam a acreditar e aceitar.
Dessa forma se faz necessário desconstruir o modelo de opressão e discriminação que historicamente foi relegado a mulher brasileira, especialmente a mulher negra que teve sua historia marcada por uma sociedade machista, classista e racista isso pode se dar atrás do reconhecimento de sua historia para desconstrução da identidade atribuída na perspectiva da criação de sua própria identidade.

por jane oliveira

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Pensando o Brasil

Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem não existe mais.
Agora já não é normal, o que dá de malandro
regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central

Chico Buarque de Holanda mostra através dessa musica, uma versão desse malandro brasileiro na atualidade que se encaixa no político que consegue através da malandragem e do jeitinho brasileiro favorecimento pessoal.
Autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda trataram da construção da identidade brasileira em suas obras. No livro Raízes do Brasil de  Sérgio Buarque de Holanda é abordado como se constituiu o mito da brasilidade, para ele a cultura da pessoalidade é que faz com que o público se confunda com o privado, junto com a herança patriarcal e a rural e só através do rompimento dessas relações familiares é que o individuo se tornaria um cidadão. Descreve o conceito de "homem cordial" que não pressupõe  bondade especificamente, mas, comportamento de aparência afetiva externa dominada pelas emoções, tornando esse homem inadequado às relações impessoais que tinha na sociedade europeia, considerada exemplo para ele. 
Influenciado pelas teorias raciais enxerga a sociedade dividida por raças, assim como, a desigualdade entre elas é algo negativo destacando o negro como uma raça inferior.  
Já em Gilberto  Freyre no seu livro Casa Grande e Senzala vai destacar a participação do negro na cultura brasileira com a culinária, a dança, a musica entre outros, colocando o aspeto da miscigenação como algo positivo e substituindo a denominação de raça por cultura.  
por: jane oliveira 

O Brasil e sua identidade


Historicamente caracterizado pela diversidade cultural, o Brasil teve a necessidade de criar um modelo de nação brasileira. Dessa forma, se buscou nas expressões cotidianas as características mais marcantes de uma identidade nacional, encontrando entre elas a figura do malandro, um sujeito “bem alinhado”, citado com frequência nas letras de sambas e conhecido por sua engenhosidade bem como pela sutileza com que consegue obter benefícios pessoais, ignorando as regras sociais. Quanto a mulher, esta será evidenciada levando em conta seus atributos físicos e sua sensualidade, exaltando seus corpos de mulatas seminus.  
Diante de tal realidade marcada historicamente pela escravidão, em que o lugar reservado pela elite a esse “povo” foi as favelas, criar tipos estereotipados se torna uma forma ideológica de criminalizar a “classe perigosa” que representa uma ameaça aos privilégios da classe elitista. Somos então levados a acreditar que essas pessoas são preguiçosas, não possuem aptidão para o trabalho e que dessa forma não estão habilitadas a viver em sociedade; pois as práticas de querer levar vantagem em tudo, atribuídas à figura do “malandro”, são dadas como naturais e desassociadas da realidade histórica e social em que isso se deu.
Já na representação social da mulher, a mídia a apresenta como símbolo de sensualidade e objeto de desejo sexual masculino. Este pensamento é, inclusive, exportado para outros países com a intenção de atrair turistas. Por influência dos meios de comunicação de massa, desde cedo as mulheres são levadas a crer que seus atributos físicos podem representar uma “oportunidade” de “se dar bem na vida”.  Tal comportamento frequentemente acaba levando muitas mulheres a engravidar de forma precoce, além de contraírem doenças sexualmente transmissíveis ou ainda recorrer à prostituição como forma de sobrevivência, o que torna evidente algumas das expressões da questão social em nosso país.
Numa sociedade marcada pelo patriarcalismo que sempre preservou a subserviência das mulheres para com os homens, deixa transbordar o machismo quando o assunto é a mulher brasileira. Assim é que se pode pensar na gênese desses discursos que se espalham por nossa sociedade. Diversos mitos são criados com um víeis ideológico elitizado com a intenção de se manter o “status quo”, criminalizando, e principalmente desmoralizando as classes subalternizadas para conservar o poder dominante e nesse caso, dominar a força de trabalho desse povo por baixa remuneração, bem como negar-lhes o direito de pensar sua condição na sociedade.